22 de junho de 2019

Fim da tomada de três pinos? Especialistas divergem sobre possível mudança..

                             Imagem: Reprodução

RESUMO DA NOTÍCIA
Troca do padrão das tomadas é discutida pelo Governo Federal
Controvérsia dos três pinos envolve suposto lobby para adoção de padrão
Tomada de três pinos traz recurso de segurança que só funciona se residência tiver rede elétrica aterrada.


Após uma série de polêmicas desde o início da obrigatoriedade de uso, em 2011, a tomada de três pinos e plugue hexagonal parecia viver, finalmente, um momento longe dos holofotes.

Isso, claro, até ela virar um dos assuntos da vez para o Governo Federal. De acordo com reportagem do jornal Valor Econômico da última segunda-feira (17), o Planalto prepara um nova norma para fazer com que o uso desse padrão de conectores deixe de ser obrigatório. A ideia seria flexibilizar a regra atual, permitindo que outros padrões sejam vendidos e instalados país afora.

Ainda que não haja qualquer proposta concreta, o simples fato de uma possível mudança ser ventilada provocou uma divisão. De um lado há quem considere a possibilidade interessante, ainda que com algumas ressalvas. É o caso do presidente do SincoElétrico (Sindicato do Comércio Varejista de Material Elétrico e Aparelhos Eletrodomésticos no Estado de São Paulo), Marco Aurélio Sprovieri Rodrigues.

"Não há necessidade de uma mudança agora. O que poderia ter sido feito seria dar continuidade aos modelos anteriores que não configuravam um 'padrão brasileiro', mas sim um que aceitava todos os modelos de pinos: chatos, redondos, três pinos e que era apelidado pelo mercado como 'padrão universal' e que não exigia a utilização de adaptadores", diz.

Rodrigues complementa levantando uma velha questão: a de que a padronização existente desde 2011 foi feita para beneficiar algumas empresas. "Minha visão enxerga um lobby, uma vez que esse padrão foi desenvolvido pelo IEC [International Electrotechnical Commision] para ser um padrão universal, mas não foi aceito pela grande maioria dos países produtores, apenas pela Suíça, Brasil e África do Sul".
Segurança em debate

Esse é um pensamento diametralmente oposto ao de Edson Martinho, executivo-chefe da Abracopel (Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade). Ele cita o fato de que o atual padrão não foi simplesmente "inventado". "Ele é fruto de uma longa discussão técnica e atende às normas internacionais de segurança. Esse movimento de padronização aconteceu em todos os países. É errado dizer que o Brasil mudou o seu padrão, já que nunca houve um padrão".

Martinho também diz sempre ouviu falar desse possível lobby, mas rechaça a ideia. "Ninguém comprova isso, só fala".

Segurança, aliás, é o principal argumento levantado por ele para defender as tomadas utilizadas no Brasil desde 2011. "A ideia do formato do plugue e da tomada em si é evitar a possibilidade de haver contato da pessoa com os pinos energizados. Além disso, há o terceiro pino, onde é ligado o fio terra", diz.

Mas para quê serve esse fio terra? Já explicamos com detalhes a importância dele, mas, de maneira breve, é possível dizer que ele ajuda a evitar acidentes ao levar possíveis descargas elétricas para o solo. Outra vantagem de um aterramento bem feito é diminuir as chances de ter aparelhos elétricos queimados durante tempestades.

Sendo assim, para que todo o potencial de segurança das tomadas de três pinos seja aproveitado é necessário que elas estejam ligadas em uma rede elétrica aterrada e com fio terra disponível para toda a instalação "Caso não exista o aterramento e também não exista o cabo terra disponível nas tomadas, o terceiro pino do plug perderia a sua função, o que coloca o usuário sob risco de choque elétrico", afirma o professor Edval Delbone, coordenador do curso de Engenharia Elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia.

É aí que surge outro problema: ainda que desde 1990 todas as construções sejam obrigadas a ter aterramento em sua rede elétrica, a norma nem sempre é seguida. Segundo Marco Aurélio Sprovieri Rodrigues, mais de 80% dos imóveis no país não tem aterramento.

Já Martinho é enfático: "Se não há aterramento, a instalação elétrica está errada". Para ele, ter um terceiro pino em todos os equipamentos acaba tendo uma função educativa. "O terceiro pino muitas vezes faz com que as pessoas questionem a sua função. No fim, acaba sendo uma forma indireta de conscientizar as pessoas sobre a importância do aterramento", diz.

É importante ressaltar que, antes da adoção de plugues com três pinos, o aterramento era feito de uma maneira mais, digamos, "manual". Muitos equipamentos vinham com um fio adicional, geralmente na cor verde, que deveria ser conectado pelo usuário separadamente na instalação de aterramento da rede elétrica.

Não é preciso dizer que pouca gente fazia isso, não é mesmo?