10 de março de 2021

'Peguei covid na volta às aulas presenciais': os riscos para professores na pandemia

 "Sou professora da Educação Infantil (para alunos de até cinco anos de idade). Parte de mim foi trabalhar (presencialmente) morrendo de medo e pensando: é questão de tempo até eu pegar (o novo coronavírus)... São muitas turmas, muitas chances diferentes todos os dias", escreveu Luiza* em mensagem à BBC News Brasil no Instagram.
                          
© Getty Images 

Após retornar à escola, no mês passado, Luiza, que é professora de inglês em João Pessoa (PB), contraiu o novo coronavírus. "Peguei covid-19 na segunda semana de aulas (presenciais)", relatou na mensagem. A situação trouxe revolta para ela, que diz ter tomado muito cuidado para evitar a infecção pelo coronavírus desde o início da pandemia. Para Luiza, não há dúvidas de que foi infectada no trabalho. "Outros cinco professores da escola também pegaram o vírus no mesmo período."

A situação de angústia relatada por Luiza diante das aulas presenciais no atual período tem sido um sentimento comum entre trabalhadores da educação de todo o país nas últimas semanas. Enquanto o Brasil enfrenta a sua pior fase de covid-19 desde o início da pandemia, com sucessivos recordes de mortes, diversas escolas públicas e particulares retomaram o ensino nas unidades físicas.

Desde o início do ano letivo, há diversos relatos de infecções pelo novo coronavírus e até mortes registradas após o retorno das atividades presenciais nas unidades de ensino.

O ensino presencial virou alvo de debates constantes. Muitos profissionais da educação relatam o temor da covid-19 e, por isso, defendem que o ensino remoto seja adotado integralmente no atual período. Porém, há segmentos que defendem que é possível retomar a educação presencial com segurança e argumentam que a volta às salas de aula é fundamental para que os estudantes possam ter um melhor desempenho.

A divergência sobre o retorno ao ensino presencial é ilustrada pelos posicionamentos de duas entidades nacionais. Na semana passada, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) defendeu a suspensão das atividades presenciais nas escolas no atual período, para conter o avanço do novo coronavírus. Posteriormente, o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) afirmou, em nota, estar preocupado com a defesa da "suspensão das atividades presenciais de todos os níveis da educação do país".

A reportagem questionou o Ministério da Saúde sobre o ensino presencial no atual momento. Porém, a pasta não se pronunciou sobre o tema.

O retorno ao ensino presencial

Desde o início deste ano, muitas escolas das redes estaduais, municipais e privadas de todo o país adotaram o ensino de forma híbrida, que combina o presencial com o remoto. Assim, as turmas são divididas em pequenos grupos para que não haja a mesma quantidade de alunos em sala como era comum antes da pandemia. A cada semana uma parte dos alunos acompanha as disciplinas presencialmente, enquanto os outros assistem ao conteúdo online.

Para retomar o ensino presencial, as orientações de especialistas são a adoção de medidas como o uso de máscaras, o distanciamento social de, ao menos, 1,5 metro, medição de temperatura e a utilização de álcool em gel. Além disso, cientistas recomendam que o ar-condicionado seja desligado para que as janelas sejam abertas, para facilitar a circulação do ar e evitar a propagação do coronavírus.

Mas as recomendações nem sempre têm sido seguidas nas unidades de ensino que retomaram as aulas presenciais. Segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), em todo o país há diversos relatos sobre escolas em que não há álcool em gel ou máscaras suficientes para professores e outros trabalhadores da unidade de ensino.